Relatório da PF citado por Moraes contra André Mendonça ressalva falta de valor probatório e aponta hipóteses de baixa confiança
Documento de inteligência usado pelo ministro para apontar indícios de possíveis irregularidades faz ressalvas sobre suas próprias conclusões e atribui níveis baixo ou moderado de confiança a parte das informações analisadas
O relatório de inteligência da Polícia Federal citado pelo ministro Alexandre de Moraes para apontar “fortes indícios” de possíveis irregularidades envolvendo o ministro André Mendonça contém ressalvas sobre a natureza e o grau de confiabilidade das informações reunidas. O documento é classificado como material de trabalho, sem valor probatório, e atribui níveis de confiança “baixo” ou “moderado” a parte das hipóteses analisadas.
Segundo reportagem de O Globo, o material foi utilizado por Moraes ao levantar suspeitas sobre a condução de investigações por Mendonça, entre elas a possibilidade de direcionamento de apurações para atingir o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. No relatório da PF, entretanto, essa possibilidade aparece como hipótese e recebe baixo grau de confiança.
A distinção é relevante porque o documento de inteligência não se apresenta como conclusão de uma investigação criminal nem como prova de ocorrência de ilícitos. Esse tipo de material reúne informações disponíveis, formula cenários e avaliações e indica o grau de confiança atribuído a cada análise.
PF ressalva que documento não tem valor probatório
O próprio relatório explicita suas limitações. Parte das informações posteriormente mencionadas por Moraes aparece no documento como avaliação de cenário, e não como fato comprovado.
Entre os pontos analisados está a hipótese de que Mendonça teria direcionado investigações com o objetivo de alcançar determinadas autoridades políticas. Enquanto Moraes considerou haver “fortes indícios” de possíveis crimes, o relatório atribuiu baixo grau de confiança a algumas das premissas utilizadas para sustentar esse cenário.
Moraes encaminhou a documentação ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, para avaliação e adoção das providências consideradas cabíveis. O episódio ocorre em meio às tensões institucionais relacionadas às investigações do caso Banco Master e após Mendonça retirar o sigilo de mensagens vinculadas às apurações.
Tratativas de colaboração premiada também são tratadas com cautela
Outro ponto destacado por Moraes envolve a suposta participação de Mendonça em negociações relacionadas a acordos de colaboração premiada. Na avaliação do ministro, teria ocorrido “efetiva participação” de Mendonça nessas tratativas.
O relatório de inteligência, contudo, atribui níveis de confiança moderado ou baixo a informações relacionadas a esse aspecto. Dessa forma, embora os elementos tenham sido considerados relevantes por Moraes, o documento da PF não os apresenta como fatos definitivamente comprovados.
O material também menciona avaliações atribuídas a Mendonça sobre relações entre autoridades envolvidas nas investigações. Entre elas estariam questionamentos a respeito da proximidade do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, com outras autoridades. De acordo com O Globo, essas informações também aparecem classificadas com baixo grau de confiança.
Moraes vê possível assimetria nas investigações
Mesmo diante das ressalvas presentes no relatório, Moraes considerou que o conjunto de informações reunidas poderia indicar tratamento desigual na condução das investigações.
O ministro apontou uma possível “assimetria” na análise de pedidos e na concessão de autorizações envolvendo diferentes investigados. Diferenças nos prazos adotados para determinadas operações foram citadas como elementos que, em sua avaliação, poderiam levantar dúvidas sobre eventual direcionamento dos procedimentos.
A controvérsia passa, assim, pela diferença entre informação de inteligência, indício e prova. Enquanto o relatório da PF trabalha com hipóteses e cenários aos quais atribui diferentes níveis de confiança, Moraes considerou que os elementos reunidos justificavam levar as suspeitas à apreciação institucional.
As próprias ressalvas feitas pela Polícia Federal, porém, indicam que parte das informações utilizadas nessa avaliação permanece no campo das hipóteses e não corresponde, até o momento, a fatos comprovados.
Essa distinção tende a ocupar papel central na discussão sobre a consistência dos indícios apresentados e sobre os desdobramentos da crise envolvendo integrantes do STF e as investigações relacionadas ao Banco Master.