Sócio de empresa ligada a produtora de ‘Dark Horse’ é investigado por ligação com PCC e feminicídio

Empresário ligado a contrato de ONG com produtora de Dark Horse é apontado pelo MP como integrante do PCC e responde por feminicídio em São Paulo

O contrato firmado por uma ONG ligada à empresária Karina Ferreira da Gama, dona da Go UP Entertainment, produtora do filme Dark Horse, sobre a vida de Jair Bolsonaro (PL), passou a ser alvo de questionamentos após a identificação de vínculos com uma empresa cujo sócio é apontado pelo Ministério Público como integrante do PCC e está preso por feminicídio em São Paulo, informa o G1.

A informação sobre a suposta ligação de Alex Leandro Bispo dos Santos com a facção criminosa havia sido divulgada inicialmente pela Folha de São Paulo e foi confirmada à GloboNews por fontes do Ministério Público e da Polícia Civil. O empresário é dono da Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., contratada pela ONG Instituto Conhecer Brasil, ligada a Karina, em um acordo de R$ 12 milhões.

A Go UP Entertainment é responsável pela produção de Dark Horse, filme que retrata a trajetória política de Bolsonaro. Karina Ferreira da Gama, proprietária da produtora, também aparece vinculada ao Instituto Conhecer Brasil, entidade que firmou contrato com a Prefeitura de São Paulo no âmbito do Programa WiFi Livre.

Segundo levantamento feito nos arquivos do Conselho Nacional de Justiça, Alex Leandro Bispo dos Santos aparece mencionado em mais de 60 processos judiciais. A presença do nome nos registros não significa, necessariamente, que ele seja réu em todas as ações, mas indica que ele figura de alguma forma nos procedimentos. Parte dos processos é de natureza criminal, incluindo acusações de roubo, extorsão mediante sequestro e feminicídio.

Também constam nos registros ações apresentadas pela própria defesa do empresário, como pedidos de revisão criminal para tentar anular condenações ou decisões anteriores. Esses procedimentos ajudam a ampliar o número total de processos em que seu nome aparece.

O contrato entre o Instituto Conhecer Brasil e a Favela Conectada chamou a atenção por inconsistências formais. No primeiro documento assinado com a ONG, o representante da empresa aparece apenas como “Alex”, sem sobrenome, CPF ou número de identidade. A empresa foi contratada para instalar pontos de internet em favelas da capital paulista.

Conforme a prestação de contas do Instituto Conhecer Brasil, a Favela Conectada teria instalado mais de 900 pontos de internet em comunidades de São Paulo. Até o fim de dezembro de 2025, a companhia havia recebido mais de R$ 2 milhões, de acordo com notas apresentadas pela entidade à Prefeitura de São Paulo.

A denúncia sobre o contrato havia sido publicada em dezembro de 2025 pelos portais The Intercept Brasil e Metrópoles, período em que Alex Leandro ainda era investigado pela Polícia Civil pelo suposto feminicídio de sua companheira. Após a divulgação do caso, a empresa deixou de ter Alex como sócio único.

Em janeiro, segundo registro da Junta Comercial do Estado de São Paulo, a Favela Conectada passou ao controle de Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes. Tatiane mora no mesmo endereço de Alex, na Rua Ernesto Paglia, na região do Butantã, Zona Oeste da capital paulista.

Alex Leandro Bispo dos Santos foi tornado réu pelo Tribunal de Justiça de São Paulo pela morte de Maria Katiane Gomes da Silva. Para o Ministério Público, a mulher foi vítima de homicídio, e não de suicídio.

A denúncia aponta que o casal discutiu durante uma festa antes de voltar ao edifício onde morava. Imagens de câmeras de segurança registraram o empresário agredindo Maria Katiane e depois arrastando a companheira de volta ao apartamento, segurando-a pelo pescoço. Pouco depois, ela caiu do décimo andar do prédio.

Em depoimento à polícia, Alex admitiu ter agredido a mulher. Ele afirmou que “perdeu a cabeça” e deu “uns tapas” na esposa, mas negou tê-la matado. Segundo a versão apresentada por ele, Maria Katiane teria ido até a sacada e se jogado.

A defesa do empresário nega tanto a acusação de ligação com o PCC quanto a imputação de feminicídio. O advogado criminalista Eugênio Malavasi afirmou: “evidência não é prova. Ele nega, peremptoriamente, integrar facção criminosa”. Sobre a morte de Maria Katiane, declarou que “o Alex não jogou sua companheira como quer crer o Ministério Público”.

A Prefeitura de São Paulo afirmou que, desde dezembro de 2025, a Favela Conectada não atua mais como parceira do Instituto Conhecer Brasil no Programa WiFi Livre. A gestão municipal também declarou que não possui vínculo contratual direto com a empresa ou com seu administrador.

Em nota, a prefeitura disse que “a relação jurídica do Município se dá somente com o ICB” e que, pela legislação aplicável, “a escolha e gestão dos fornecedores e terceirizados são de responsabilidade unicamente da entidade parceira”. A administração municipal também classificou como “irresponsável e leviana” qualquer associação direta entre a Prefeitura de São Paulo e o crime organizado.

A prefeitura acrescentou que todos os pontos de internet contratados e pagos ao Instituto Conhecer Brasil foram instalados e estão em operação. Segundo a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, o Programa WiFi Livre funciona normalmente e “não houve nenhuma irregularidade confirmada até o momento pelas investigações em curso”.

O Instituto Conhecer Brasil afirmou que contratou a Favela Conectada com base em critérios técnicos, operacionais e documentais. A entidade disse que, à época da contratação, o representante da empresa já prestava serviços de conectividade em Paraisópolis e apresentava notas fiscais regulares, o que teria servido como referência de capacidade técnica.

Em nota, o ICB declarou que “não foi identificado qualquer impedimento legal que inviabilizasse a contratação” e afirmou que o representante da empresa estava, naquele momento, em situação regular perante a Justiça. A entidade também disse ser comprometida com princípios de ressocialização e contra práticas discriminatórias contra pessoas que já cumpriram pena.

O instituto informou ainda que, ao tomar conhecimento da investigação relacionada ao feminicídio envolvendo o administrador da empresa, adotou medidas para resguardar o projeto e rescindiu a relação contratual com a Favela Conectada, que deixou a operação em dezembro de 2025. Segundo o ICB, os serviços prestados foram medidos e fiscalizados, sem registro de prejuízo aos recursos públicos.

A entidade afirmou permanecer à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e destacou que eventuais questões sobre envolvimento de cidadãos com facções criminosas são de competência policial. www.brasil247.com