7 pontos para entender como a inteligência artificial pode ajudar na prevenção do suicídio

Professor de Medicina do CEUB explica o potencial, os limites e os riscos do uso de algoritmos e chatbots na saúde mental

A inteligência artificial já consegue analisar padrões de linguagem, dados clínicos e alterações de comportamento que podem contribuir para a identificação de pessoas com maior risco de suicídio. Apesar dos avanços, a tecnologia não deve ser utilizada de forma autônoma para diagnosticar pacientes nem para tomar decisões em situações de crise. O psiquiatra e professor de Medicina do Centro Universitário de Brasília (CEUB) Lucas Benevides destaca sete pontos fundamentais para compreender como essas ferramentas podem ser incorporadas à saúde mental de maneira ética e segura.

1. Estudos são promissores, mas ainda estão em fase inicial
Em um dos estudos analisados por revisões científicas, a intervenção digital aumentou em 23% a busca por atendimento especializado e serviços de apoio em situações de risco. Segundo Benevides, os resultados devem ser interpretados com cautela: “Estamos em uma fase de evidências iniciais, mas promissoras. As amostras ainda são pequenas e o acompanhamento costuma ser de curto prazo. A IA deve ser adotada como ferramenta de apoio à decisão clínica, não como uma solução validada para uso autônomo”.

2. Algoritmos podem perceber sinais difíceis de identificar em uma consulta
Uma das vantagens da IA é a capacidade de processar, simultaneamente, grandes volumes de informação. O docente do CEUB explica que a composição dos dados de prontuários eletrônicos, histórico de internações, padrões de linguagem e mudanças de comportamento podem revelar alterações importantes no estado emocional da pessoa.

“Em uma consulta de 30 minutos, algumas mudanças podem passar despercebidas. A IA consegue reunir diferentes sinais e indicar quais pacientes precisam de avaliação mais urgente”, afirma Lucas. Isso não significa, porém, que o algoritmo seja capaz de estabelecer um diagnóstico. De acordo com o psiquiatra, a tecnologia funciona como espécie de triagem inteligente, auxiliando o profissional na definição de prioridades.

3. A IA pode sinalizar sofrimento que o paciente não consegue expressar
Como nem todas as pessoas em sofrimento psíquico conseguem falar sobre o que estão vivendo durante uma consulta, os algoritmos de análise dos padrões comportamentais podem reconhecer mudanças sutis associadas ao aumento do risco. “A partir das probabilidades estatísticas, o sistema pode sinalizar algo que merece atenção, mas quem interpreta esse dado, considerando o histórico e o contexto de vida do paciente, é o profissional de saúde”, ressalta Benevides. Por isso, o alerta emitido pela tecnologia é ponto de partida para avaliação qualificada, não conclusão sobre a condição do paciente.

4. Chatbots podem acolher, mas não substituem profissionais
Para algumas pessoas, falar inicialmente com um chatbot sobre sofrimento emocional pode parecer mais fácil do que procurar um profissional. Esse primeiro contato pode ter valor, especialmente para quem sente vergonha, medo ou resistência em pedir ajuda. O risco, segundo o docente do CEUB, está em transformar a ferramenta na única fonte de cuidado. “Os chatbots nem sempre reconhecem a gravidade da situação ou fazem o encaminhamento adequado. Eles podem funcionar como uma ponte para o cuidado profissional, mas não devem ser a única porta de atendimento”, alerta.

5. Se a tecnologia identificar risco, uma pessoa precisa entrar em cena
O psiquiatra do CEUB defende protocolos claros para situações de risco. Caso um algoritmo identifique sinais compatíveis com uma possível crise suicida, o ideal é que o sistema acione uma equipe de saúde ou outro protocolo de contato ativo com o paciente. “Não basta enviar uma mensagem automática. Em situação de risco, é necessário haver resposta humana. A tecnologia sinaliza e as pessoas respondem”, afirma o especialista.

6. Erros, vieses e falta de privacidade estão entre os riscos
O uso da IA na psiquiatria também traz desafios. Um algoritmo pode produzir um falso negativo e deixar de identificar alguém em risco. Também pode gerar um falso positivo e classificar inadequadamente uma pessoa como vulnerável, provocando ansiedade, estigmatização ou intervenções desnecessárias. Outro problema é a possibilidade de vieses, já que sistemas treinados com bancos de dados pouco diversos podem apresentar menor precisão para determinados grupos da população.

“Existem ainda modelos de difícil auditoria, conhecidos como ‘caixas-pretas’, nos quais nem sempre é possível compreender como determinada conclusão foi produzida. Em saúde mental, isso é especialmente delicado”, explica Lucas Benevides. A proteção das informações é outro ponto central. Dados relacionados à saúde mental devem ser tratados de acordo com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), com medidas rigorosas de segurança e regras transparentes sobre coleta, utilização e armazenamento.

7. O futuro deve ser de parceria entre profissionais e tecnologia
Na avaliação do professor do CEUB, ferramentas de IA devem ganhar espaço na rotina dos serviços de saúde mental, sobretudo na triagem, acompanhamento e identificação precoce de mudanças no quadro dos pacientes. A responsabilidade pela avaliação e pela decisão clínica, contudo, deve permanecer com os profissionais. “O psiquiatra continuará responsável por interpretar o contexto humano, estabelecer o vínculo terapêutico e tomar a decisão clínica final. A IA pode ampliar o alcance do cuidado, mas não substitui a relação entre médico e paciente”, conclui Benevides.

Onde buscar ajuda
Pessoas que estejam passando por sofrimento emocional ou pensamentos suicidas podem procurar uma unidade de saúde ou entrar em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188, disponível gratuitamente 24 horas por dia. Em situações de emergência, a orientação é acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), pelo número 192.