Cientistas brasileiros avançam na busca por novos tratamentos contra malária resistente
Compostos desenvolvidos por pesquisadores da UFSCar e da USP mostraram eficácia contra cepas resistentes do parasita da malária e podem abrir caminho para futuros medicamentos.
Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Universidade de São Paulo (USP) identificou uma nova classe de moléculas com potencial para combater formas resistentes da malária. Os compostos apresentaram resultados promissores em testes laboratoriais contra cepas do parasita Plasmodium falciparum que já não respondem adequadamente aos medicamentos convencionais.
O estudo descreve o desenvolvimento de moléculas chamadas “peptidomiméticos baseados em indol”, criadas a partir de uma estrutura química conhecida por suas propriedades medicinais. Os pesquisadores produziram diferentes variações do composto para avaliar quais seriam mais eficientes no combate ao parasita sem afetar células humanas saudáveis.
Nos experimentos, os cientistas expuseram o Plasmodium a diferentes concentrações das substâncias durante três dias. Ao final do processo, utilizaram um marcador fluorescente para medir a presença do DNA do parasita. Alguns compostos conseguiram inibir de forma significativa o desenvolvimento do micro-organismo, inclusive em cepas resistentes a antimaláricos tradicionais.
Os resultados também indicaram que as novas moléculas podem atuar de maneira complementar à artemisinina, considerada atualmente o principal medicamento no tratamento da malária. Segundo os pesquisadores, a combinação pode ajudar a reduzir o risco de desenvolvimento de novas resistências.
A malária continua sendo uma das doenças infecciosas mais letais do mundo. Dados citados no estudo apontam que a enfermidade afeta centenas de milhões de pessoas todos os anos e provoca mais de 600 mil mortes anuais, principalmente em países africanos e do Sudeste Asiático.
Atualmente, o tratamento padrão utiliza derivados da planta Artemisia annua, como a artemisinina, associados a outros medicamentos de ação prolongada. No entanto, o avanço de cepas resistentes vem preocupando especialistas e impulsionando a busca por novas alternativas terapêuticas.
A pesquisa foi desenvolvida no Centro de Excelência para Pesquisa em Química Sustentável (CERSusChem), da UFSCar, e no Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar), ligado à USP e financiado pela FAPESP.
Dois dos compostos mais promissores passaram por análises adicionais para medir velocidade de ação, eficácia em combinação com derivados da artemisinina e desempenho contra cepas resistentes do P. falciparum. Os testes mostraram que as moléculas possuem ação mais lenta, o que pode favorecer o uso combinado com medicamentos de resposta rápida.
Além disso, os compostos demonstraram atividade contra seis cepas resistentes a medicamentos como cloroquina e atovaquona, considerados importantes no tratamento da doença.
Segundo os pesquisadores, os resultados representam um passo importante para o desenvolvimento de novos antimaláricos. A equipe agora trabalha na criação de novas versões das moléculas para aumentar a potência e melhorar a solubilidade em água antes do início das próximas etapas de testes pré-clínicos e clínicos.
Os cientistas destacam que o desenvolvimento completo de um novo medicamento pode levar cerca de dez anos.