Redes que movem a ciência: a força da colaboração no avanço científico
Por Ana Paula de Melo Loureiro, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP
Ao consultarmos bases de dados de conteúdo técnico-científico, constatamos que o trabalho científico é, em essência, colaborativo. A tendência de aumento do número de artigos em coautoria, com a média de autores por artigo em crescimento, tornou-se evidente a partir da metade do século 20. Hoje, são raros os artigos científicos de um único autor, pois a colaboração se revelou primordial para atender à ambição intelectual e enfrentar rapidamente desafios complexos.
Formular a pergunta relevante, adquirir ou compartilhar os meios e ferramentas para a execução da investigação, realizar a coleta e a interpretação dos dados, e reunir os achados de forma organizada, visando contribuir de forma relevante para a rede intrincada do conhecimento, são partes que se interrelacionam no processo. Como em um corpo, há comunicação entre os agentes envolvidos e cada um importa para a manifestação do todo. Colaborações tornaram-se condição estrutural para o avanço da ciência e atravessam fronteiras disciplinares, institucionais e geográficas.
Para prosperar, no entanto, a colaboração científica precisa se apoiar em princípios básicos: confiança, reconhecimento, comunicação clara e justiça na atribuição de crédito.
Há sofrimento quando pesquisadores veem suas contribuições serem diminuídas ou apagadas. Ou quando os produtos do trabalho colaborativo são tratados como insignificantes para a carreira do pesquisador colaborador e para suas tentativas de angariar recursos para a execução de suas ideias. Quando isso ocorre, a desconfiança substitui a generosidade intelectual. O trabalho em rede, que deveria ampliar a ciência, passa a ser visto como um risco de apropriação ou de apagamento.
Esse é um problema sério, pois, na analogia com o corpo, o cérebro, sem suas conexões com os demais órgãos, é apenas um cérebro. As conexões permitem a manifestação da vida, a realização de ações e os seus resultados. Da mesma forma, a “ideia original” ou a “coordenação formal do projeto” não leva aos produtos almejados se não houver contribuições decisivas na escolha dos métodos adequados, na solução de problemas analíticos, na construção de plataformas, na integração de dados, na validação de resultados, na interpretação interdisciplinar e na conexão entre diferentes campos. Essas contribuições determinam a qualidade e a robustez de um achado científico tanto quanto a pergunta inicial.
A valorização da colaboração torna a ciência mais robusta. Colaborações ampliam o repertório, permitem enfrentar problemas difíceis, favorecem a inovação e aumentam as chances de produzir conhecimento impactante.
Redes de colaboração foram decisivas para que muitas contribuições brasileiras alcançassem impacto internacional. Em vários casos, o avanço não decorreu apenas da excelência de um pesquisador ou de um laboratório isolado, mas também da capacidade de articular grupos, competências, infraestrutura, dados, amostras, estudantes, técnicos e instituições em torno de problemas científicos complexos.
No caso da genômica brasileira, por exemplo, o sequenciamento da Xylella fastidiosa ganhou escala porque foi organizado em uma super-rede de laboratórios (rede virtual ONSA – Organization for Nucleotide Sequencing and Analysis). A contribuição dependia da ideia original, mas também de divisão de tarefas, padronização de métodos, desenvolvimento da bioinformática, compartilhamento de dados e coordenação entre grupos. A rede permitiu que uma comunidade científica realizasse um projeto de fronteira e se projetasse internacionalmente.
Outros exemplos foram as respostas brasileiras ao vírus zika e, depois, à covid-19. A emergência sanitária exigia a coleta de amostras em diferentes regiões, o sequenciamento viral, a análise epidemiológica, os estudos clínicos, os modelos experimentais, a comunicação com os serviços de saúde e a publicação ágil dos achados. Nenhum grupo isolado responderia com a velocidade e a abrangência necessárias para causar o impacto almejado na saúde pública.
As redes de colaboração aumentam o impacto científico por vários motivos. Elas reúnem competências complementares, reduzem duplicação de esforços, ampliam o acesso a equipamentos e amostras, fortalecem a formação de estudantes, tornam os resultados mais robustos, favorecem publicações de maior alcance e aumentam a visibilidade da produção científica. Além disso, permitem que pesquisadores atuem mesmo quando não coordenam individualmente grandes projetos financiados, pois podem contribuir com conhecimento, dados, orientação, análise, infraestrutura compartilhada ou formulação conceitual.
Esse ponto é especialmente importante para uma reflexão institucional. Se a ciência contemporânea é cada vez mais coletiva, interdisciplinar e em rede, então a relevância de um pesquisador não deve ser medida apenas pela coordenação individual de projetos financiados. Participar de redes, liderar subprojetos, formar pessoas, oferecer expertise, integrar análises e sustentar colaborações também são formas legítimas e relevantes de contribuição científica.
Se a ciência avança em rede, os critérios de reconhecimento precisam ser compatíveis com essa realidade. Uma cultura científica que tem a colaboração em sua essência, mas valoriza apenas a liderança individual, a posição destacada na lista de autores ou a coordenação formal de recursos, cria uma contradição perigosa. Pede trabalho coletivo, mas recompensa como se a ciência resultasse de indivíduos isolados.
Alguns valores fundamentais intrinsecamente ligados à ciência foram enumerados pelo jornalista científico Bernard Dixon, editor da New Scientist de 1969 a 1979, em seu livro Para que serve a ciência?, publicado originalmente em 1973 e em tradução para o português em 1976. Esses valores fundamentais estão aqui colocados: os pesquisadores devem cultivar um profundo senso de honestidade na execução do seu trabalho, apresentar humildade diante dos fatos, respeitar o que se apresenta como revolucionário e reconhecer a importância da cooperação.
Portanto, para não desestimular colaborações, é necessário abandonar práticas que tratam contribuições científicas relevantes como meras participações técnicas. A ciência brasileira precisa de redes fortes, mas essas redes dependem de confiança. E confiança depende de reconhecimento justo. Valorizar adequadamente as coautorias, explicitar as contribuições e proteger os colaboradores contra apagamentos não é concessão; é investimento direto na qualidade, na integridade e no futuro da pesquisa científica. jornal.usp.br