Saúde mental vira obrigação das empresas com nova regra trabalhista. Veja o que muda

Especialista em Psicologia Organizacional do CEUB explica a atualização da NR-1, que exige prevenção de assédio, pressão excessiva e sobrecarga no trabalho

Com a entrada em vigor da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), empresas e organizações de todos os portes terão de identificar, monitorar e reduzir fatores que possam provocar adoecimento psicológico dos colaboradores. Situações como assédio moral, excesso de cobrança, metas abusivas, conflitos internos e jornadas desgastantes agora integram o gerenciamento de riscos ocupacionais. A psicóloga organizacional e professora de Psicologia do Centro Universitário de Brasília (CEUB), Patrícia Emanuele Ribeiro, explica os impactos da medida na gestão de pessoas.

Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, conforme dados da Previdência Social. Segundo a especialista, sinais como aumento de faltas, presenteísmo, alta rotatividade, queda de produtividade, medo constante de errar e aumento de conflitos internos indicam que o ambiente pode estar adoecendo os colaboradores. “Se vários trabalhadores estão exaustos ou desmotivados, o problema não pode ser tratado apenas como uma questão individual. Muitas vezes, ele está relacionado à forma como o trabalho está estruturado”, afirma.

Patrícia esclarece que parte das ações preventivas não necessariamente demandam grandes investimentos. “Gestão de risco psicossocial é, antes de tudo, sobre processos e liderança”, explica. Entre as iniciativas, estão criação de canais de escuta, revisão de metas e funções e treinamento de lideranças para reconhecer sinais de sobrecarga.

Para ajudar a entender o tema, a especialista do CEUB lista pontos essenciais:

O que mudou para as empresas
Até então, as normas de segurança do trabalho concentravam maior atenção em riscos físicos, químicos e ergonômicos. Com a atualização, os chamados riscos psicossociais passam a ser considerados formalmente pelas organizações. Isso significa que as empresas devem mapear fatores que possam gerar sofrimento emocional, estabelecer medidas preventivas e demonstrar que estão atuando para reduzir esses riscos.

Empresas podem ser fiscalizadas e multadas
A atualização da NR-1 amplia o foco das fiscalizações trabalhistas. Auditores poderão analisar não apenas riscos físicos, mas também a dinâmica de trabalho, relações entre lideranças e equipes, jornadas e práticas de gestão. Caso a empresa não identifique ou não adote medidas preventivas para reduzir riscos psicossociais, poderá sofrer autuações e multas previstas na legislação trabalhista.

Pequenos negócios também precisam se adequar
Embora microempreendedores individuais (MEI) estejam dispensados de elaborar o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), as micro e pequenas empresas devem observar fatores relacionados à saúde mental e ergonomia. “Pequenos negócios podem desenvolver práticas preventivas, melhorar a comunicação interna e criar canais de escuta para reduzir o adoecimento emocional”, afirma a docente do CEUB.

Benefícios isolados não resolvem o problema
De acordo com Patrícia Ribeiro, ações isoladas, como oferecer apps de meditação, palestras ou programas de bem-estar, não substituem mudanças estruturais. “Não adianta oferecer benefícios se a rotina continua adoecedora”, destaca. Entre as medidas esperadas estão revisão de metas, reorganização de jornadas, combate ao assédio e capacitação de lideranças.

Prevenção é prioridade
A especialista do CEUB explica que a nova NR-1 deve acelerar uma mudança cultural dentro das organizações, com a saúde mental integrando estratégias de produtividade, retenção de talentos e sustentabilidade corporativa. “A lógica agora é preventiva. O objetivo é identificar os riscos antes que eles provoquem afastamentos, adoecimento e perda de qualidade de vida”.

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
A professora do CEUB reforça ainda que a gestão dos riscos psicossociais não pode se limitar ao cumprimento burocrático da legislação. “A qualidade de vida no trabalho e o bem-estar precisam ser integrados aos objetivos estratégicos do negócio. Empresas saudáveis são mais inovadoras, retêm talentos e são mais lucrativas a longo prazo”.

Patrícia Ribeiro acrescenta que a saúde mental no ambiente corporativo é uma diretriz dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. “Cuidar da saúde mental no trabalho é atender ao ODS 3, de Saúde e Bem-Estar, e ao ODS 8, de Trabalho Decente e Crescimento Econômico. Trata-se do pilar social do ESG levado a sério. Cuidar das pessoas é, fundamentalmente, garantir a sustentabilidade do próprio negócio”, finaliza.