A busca infrutífera pela excepcionalidade humana
Por Augusto Hauber Gameiro, professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP
Meu artigo anterior publicado no Jornal da USP, Por que protegemos cães e consumimos bovinos?, gerou numerosas manifestações de leitores. Muitas delas convergiam para uma questão ainda mais profunda: afinal, existe alguma característica que torna os seres humanos essencialmente superiores aos demais animais? As reflexões apresentadas a seguir constituem uma versão resumida de um ensaio filosófico mais amplo desenvolvido por mim sobre esse tema. O objetivo é compartilhar, de forma acessível, algumas das principais ideias dessa investigação, que desloca o debate do campo de nossas escolhas morais para um problema que acompanha a história do pensamento há mais de dois mil anos.
Ao contrário do texto anterior, que discutia a maneira como atribuímos diferentes valores às espécies, esta reflexão parte de outra pergunta: por que, ao longo da história, sentimos tanta necessidade de justificar nossa posição como uma espécie excepcional? A ética aparece aqui não como ponto de partida, mas como consequência de uma investigação histórica. Em outras palavras, antes de perguntar como deveríamos tratar os demais animais, vale compreender por que passamos tantos séculos tentando demonstrar que ocupamos um lugar acima deles.
Poucas ideias exerceram tanta influência sobre a cultura ocidental quanto a convicção de que existe algo que nos separa profundamente do restante da vida. Em diferentes épocas, filósofos, teólogos e cientistas buscaram identificar uma característica capaz de justificar essa singularidade. A razão, a linguagem, a consciência, a alma, a espiritualidade, a cultura e a moralidade foram sucessivamente apresentadas como atributos exclusivamente humanos. Essa busca, contudo, nunca foi apenas um exercício intelectual. Ela moldou nossa maneira de compreender a nós mesmos e influenciou profundamente a forma como passamos a nos relacionar com os demais seres vivos.
Em muitos momentos da história, a crença em uma posição privilegiada da humanidade serviu de fundamento para diferentes formas de domínio, exploração e instrumentalização da natureza e dos animais.
Curiosamente, a própria história dessa busca revela um padrão bastante significativo. Sempre que uma determinada característica parecia estabelecer uma fronteira definitiva entre humanos e animais, novas descobertas acabavam enfraquecendo essa certeza. Durante séculos, por exemplo, acreditou-se que apenas os seres humanos utilizavam ferramentas. Hoje sabemos que diferentes espécies de primatas, aves e até cefalópodes também o fazem. A cultura, entendida como transmissão social de comportamentos aprendidos, também deixou de ser considerada exclusivamente humana. O mesmo ocorreu com diversas formas de comunicação complexa, resolução de problemas, cooperação, planejamento, empatia e até manifestações compatíveis com o luto.
Naturalmente, isso não significa que seres humanos e outros animais sejam iguais. Nossa espécie desenvolveu uma linguagem simbólica extraordinariamente sofisticada, acumulou conhecimento científico ao longo de gerações, criou sistemas filosóficos, instituições, tecnologias e expressões artísticas de enorme complexidade. Essas características permanecem singulares e ajudam a explicar o papel transformador que a humanidade passou a exercer sobre o planeta. O problema talvez nunca tenha sido reconhecer essas diferenças. O verdadeiro problema surgiu quando passamos a acreditar que elas seriam suficientes para justificar uma superioridade moral absoluta.
Essa distinção merece especial atenção. Diferenças pertencem ao campo da descrição; superioridade pertence ao campo da ética. Uma espécie pode possuir determinadas capacidades que outra não possui sem que isso implique maior dignidade moral. Confundir essas duas dimensões significa transformar fatos em justificativas éticas, como se uma característica biológica, cognitiva ou cultural fosse suficiente, por si só, para determinar o valor de uma vida. Essa talvez tenha sido uma das mais persistentes confusões produzidas pela tradição ocidental e continua presente, muitas vezes de forma implícita, em nosso modo de pensar.
A própria ciência contemporânea vem contribuindo para esclarecer essa questão. A biologia evolutiva mostrou que compartilhamos ancestralidade comum com todas as demais formas de vida. A etologia revelou uma riqueza cognitiva e emocional muito maior do que durante séculos imaginávamos existir nos outros animais. A neurociência comparada continua identificando continuidades importantes entre diferentes espécies. Quanto mais conhecemos os demais animais, menos convincentes parecem as fronteiras absolutas que durante tanto tempo procuramos estabelecer entre humanidade e animalidade.
Esse debate torna-se ainda mais interessante quando ampliamos nosso horizonte para além da tradição ocidental. Diversas cosmovisões nunca colocaram a excepcionalidade humana no centro de suas preocupações. Em muitas tradições indígenas das Américas, por exemplo, humanos e animais participam de uma mesma comunidade de existência, distinguindo-se muito mais pelas diferentes perspectivas com que experimentam o mundo do que por uma separação ontológica radical. Em diferentes filosofias orientais, africanas e tradições religiosas, a questão central não consiste em descobrir aquilo que nos torna superiores, mas compreender como todas as formas de vida participam de uma realidade compartilhada. Isso não significa negar as diferenças entre as espécies, mas reconhecer que diferença e hierarquia não são sinônimos.
Talvez justamente aí resida uma das contribuições mais importantes da reflexão contemporânea. Durante muito tempo perguntamos: “O que nos torna diferentes dos demais animais?”. Hoje talvez devêssemos formular outra pergunta: “Por que acreditamos que uma diferença precisa necessariamente justificar uma superioridade?”. A mudança parece sutil, mas altera profundamente todo o debate. Ela nos permite reconhecer simultaneamente duas verdades que não se excluem. A primeira é que a espécie humana possui características extraordinárias, desenvolvidas ao longo de sua história evolutiva e cultural. A segunda é que nenhuma dessas características parece suficiente para fundamentar, de maneira filosoficamente convincente, uma superioridade moral absoluta sobre as demais formas de vida.
Há ainda um aspecto particularmente curioso nessa história. Ao longo dos séculos, o critério utilizado para justificar nossa excepcionalidade mudou repetidas vezes. Em diferentes momentos, a razão ocupou esse lugar. Depois vieram a linguagem, a consciência, a cultura, a moralidade e tantas outras capacidades. Sempre que uma delas deixava de parecer exclusivamente humana, outra assumia sua posição. Talvez o elemento mais constante dessa trajetória nunca tenha sido a descoberta de uma diferença definitiva, mas a persistente necessidade de continuar procurando uma.
Essa constatação convida a inverter a própria pergunta. Em vez de investigar continuamente o que nos separa dos outros animais, talvez seja igualmente importante compreender por que sentimos tanta necessidade dessa separação. Essa mudança de perspectiva parece especialmente relevante no momento histórico que vivemos.
Nunca soubemos tanto sobre os demais animais. Nunca tivemos tamanho poder para transformar os ecossistemas. Nunca produzimos impactos tão profundos sobre a biodiversidade. Ao mesmo tempo, nunca tivemos acesso tão amplo às evidências científicas sobre a complexidade cognitiva, emocional e social de inúmeras espécies.
Quanto maior se torna nosso conhecimento, maior também parece tornar-se nossa responsabilidade.
Talvez seja justamente essa — e não uma suposta superioridade — a característica mais singular da condição humana. Somos provavelmente a única espécie capaz de refletir criticamente sobre o próprio lugar na comunidade da vida e de deliberar moralmente sobre as consequências de suas ações. Se isso nos distingue, essa distinção não cria privilégios. Ao contrário, amplia nossos deveres diante das demais formas de vida e das futuras gerações.
O desafio nunca consistiu em negar a singularidade humana. Nossa singularidade permanece evidente e merece ser reconhecida. O verdadeiro desafio consiste em compreender que singularidade não equivale a superioridade. Talvez a maior conquista intelectual da humanidade não seja descobrir uma razão definitiva para colocar-se acima dos demais animais, mas reconhecer, com a humildade proporcionada pelo conhecimento, que jamais deixou de fazer parte da mesma comunidade da vida. Se essa conclusão estiver correta, o verdadeiro sinal de maturidade de nossa espécie talvez não seja a capacidade de afirmar sua superioridade, mas a disposição para compreender, finalmente, o lugar que ocupa dentro da natureza. jornal.usp.br