Pensar em legado é ver além do presente
Por Eric Klug, superintendente do Fundo Patrimonial da USP
Falar de legado é, em essência, falar de permanência. Em um mundo orientado pelo curto prazo, a decisão de construir algo que sobreviva por décadas ou séculos revela não apenas visão, mas também um entendimento profundo de uma das necessidades humanas mais universais: a de perpetuar ações, ideias e memória.
Mas a questão central não é apenas o desejo de ser lembrado. É a capacidade de transformar patrimônio, conhecimento e valores em benefícios duradouros para a sociedade. É justamente nesse contexto que ganham relevância os fundos patrimoniais, estruturas concebidas para preservar recursos e garantir apoio contínuo a causas que transcendem gerações.
A história mostra que aqueles que permanecem na memória coletiva não são apenas os que acumularam riqueza, mas os que a transformaram em valor público. Famílias como os Rockefeller e os Ford, assim como figuras como Andrew Carnegie, associaram seus nomes a universidades, bibliotecas, museus, hospitais e programas educacionais que continuam produzindo impacto muito depois de seus fundadores. Seu legado atravessou o tempo porque foi vinculado a instituições capazes de atravessar o tempo.
No Brasil, essa cultura ainda está em consolidação, mas há exemplos inspiradores. O acervo reunido por Guita e José Mindlin tornou-se referência para pesquisadores de todo o País e deu origem à Biblioteca Brasiliana, hoje sediada na USP. O legado da família Álvares Penteado permanece associado à educação e à cultura. Iniciativas desenvolvidas pelo Itaú Cultural e pela Fundação Roberto Marinho demonstram que empresas e famílias brasileiras também vêm construindo formas duradouras de contribuição para a sociedade.
Em contraponto, muitos grupos empresariais e financeiros que tiveram grande relevância em determinados períodos desapareceram da memória coletiva. Sem vínculos permanentes com causas públicas ou instituições relevantes, sua influência permaneceu restrita ao seu próprio tempo. Isso evidencia uma questão fundamental: o legado não é automático. Ele precisa ser construído de forma intencional.
Essa construção exige uma mudança de perspectiva. Pensar em legado significa ampliar o horizonte das decisões e considerar não apenas o impacto imediato, mas também os efeitos que elas produzirão nas próximas décadas. Significa perguntar que contribuições permanecerão quando já não estivermos aqui para testemunhá-las.
Existem diversas formas de materializar esse compromisso. Bolsas de estudo que formam gerações de profissionais, centros de pesquisa que produzem conhecimento, programas de inclusão social, museus, bibliotecas e iniciativas culturais são exemplos concretos de investimentos que continuam gerando valor muito além do momento em que foram realizados.
É por isso que os fundos patrimoniais vêm se consolidando em todo o mundo como uma das ferramentas mais eficazes para a construção de legados duradouros. Ao constituir um patrimônio permanente, cujos rendimentos financiam causas relevantes ao longo do tempo, eles permitem transformar uma contribuição individual em uma fonte contínua de impacto. Mais do que uma doação pontual, representam um compromisso com o futuro.
O Fundo Patrimonial da USP insere-se exatamente nessa lógica. Ao apoiar ensino, pesquisa, inovação, cultura, sustentabilidade e inclusão, oferece a indivíduos, famílias, empresas e instituições a oportunidade de associar seus valores a uma universidade que há mais de nove décadas contribui para o desenvolvimento científico, econômico e social do Brasil.
Refletir sobre legado, afinal, é refletir sobre permanência. É decidir se aquilo que construímos ficará restrito à nossa própria trajetória ou se continuará gerando oportunidades, conhecimento e transformação para as próximas gerações. As instituições que atravessam o tempo e perduram existem porque alguém, em algum momento, escolheu olhar além do presente. jornal.usp.br