Estudo revela que vírus sabiá circula no Brasil há mais de um século e apresenta mutações

Pesquisadores identificaram mudanças genéticas no vírus após casos fatais registrados em São Paulo entre 2019 e 2020

O vírus sabiá (SABV), responsável por uma rara síndrome hemorrágica e neurológica aguda, circula no Brasil há pelo menos 142 anos e vem sofrendo alterações genéticas ao longo do tempo. A descoberta foi feita por pesquisadores ligados ao Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE), com apoio da FAPESP.

O estudo analisou dois casos fatais registrados no interior de São Paulo, em 2019 e 2020, e mostrou que as mudanças genéticas impediram que o vírus fosse detectado pelos testes laboratoriais tradicionais utilizados até então.

Os resultados foram publicados na revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases. A partir das análises, os pesquisadores desenvolveram um novo método diagnóstico, capaz de identificar variantes mais recentes do vírus. O material já foi encaminhado ao Instituto Adolpho Lutz, referência em vigilância laboratorial no Estado de São Paulo.

Mudanças genéticas dificultavam identificação

Segundo a pesquisadora Ingra Morales Claro, autora do trabalho, os exames disponíveis utilizavam como base genética uma cepa identificada em 1990, em Cotia (SP), primeiro caso conhecido da doença.

Com mais de três décadas de circulação, o vírus sofreu mutações justamente em regiões usadas pelos testes para reconhecê-lo, o que dificultava o diagnóstico.

Os novos genomas analisados apresentaram cerca de 89% de similaridade genética com as cepas identificadas no fim da década de 1990. A equipe conseguiu atualizar os primers — pequenos fragmentos de DNA usados nos exames — tornando possível detectar as variantes atualmente em circulação.

Casos foram descobertos após análises avançadas

O caso registrado em 2020 foi identificado por meio de uma técnica de metagenômica, capaz de localizar diferentes microrganismos diretamente em amostras clínicas, mesmo sem suspeita prévia do agente infeccioso.

O vírus foi encontrado no sangue de um homem de 52 anos, morador de Sorocaba, que havia frequentado áreas de mata antes de apresentar sintomas graves. Inicialmente, os exames deram negativo para febre amarela e para o próprio vírus sabiá. O paciente morreu em janeiro de 2020.

Após essa descoberta, os pesquisadores revisaram amostras de outros pacientes com síndrome hemorrágica aguda que também haviam testado negativo para febre amarela. Assim, identificaram um segundo caso: um trabalhador rural de 63 anos, da cidade de Assis, que morreu em dezembro de 2019.

Vírus circula silenciosamente há décadas

As análises filogenéticas indicam que o vírus circula silenciosamente no Brasil há muito tempo e que provavelmente houve outros casos não identificados no passado.

Os pesquisadores também observaram alterações na proteína responsável pela ligação do vírus às células humanas, o que pode ajudar a compreender melhor sua evolução e capacidade de infecção.

Para a professora Ester Sabino, da Faculdade de Medicina da USP, o estudo reforça a importância da vigilância genômica para antecipar riscos e possíveis surtos futuros.

Reservatório ainda é desconhecido

Os cientistas ainda não sabem qual animal funciona como reservatório natural do vírus sabiá, embora a principal hipótese seja a de roedores silvestres. Todos os casos conhecidos ocorreram em áreas rurais, onde há maior contato entre humanos e animais.

Especialistas destacam que métodos de metagenômica têm sido fundamentais para detectar vírus raros e emergentes, principalmente quando os exames convencionais falham.

O SABV também é considerado um dos vírus brasileiros de maior risco para transmissão por aerossóis em ambientes laboratoriais, exigindo nível máximo de biossegurança para manipulação.

Atualmente, o Brasil ainda não possui estrutura adequada para armazenar e estudar o vírus ativo. A expectativa é que o laboratório Orion, em construção no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, passe a realizar esse tipo de trabalho a partir de 2030.