Mais da metade das vítimas de mortes violentas no Brasil tinha álcool ou drogas no organismo, aponta estudo da USP

Pesquisa realizada em quatro capitais brasileiras revela forte presença de substâncias psicoativas em casos de homicídio, acidentes de trânsito e suicídios

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo revelou que 53% das vítimas de mortes violentas analisadas em quatro capitais brasileiras apresentavam álcool ou drogas no organismo no momento da morte. A pesquisa avaliou 3.577 casos registrados em Belém, Recife, Vitória e Curitiba e foi publicada na revista científica Toxics.

O levantamento analisou vítimas de homicídios, acidentes de trânsito, suicídios e outras ocorrências classificadas como mortes por causas externas. Segundo os pesquisadores, o objetivo foi produzir dados padronizados sobre a relação entre substâncias psicoativas e a violência no Brasil.

As análises toxicológicas identificaram principalmente cocaína, álcool, benzodiazepínicos e cannabis. A cocaína apareceu em 30% dos casos, seguida pelo álcool, presente em 28% das amostras. Os benzodiazepínicos representaram 7% e a cannabis, 2%.

O estudo mostrou ainda que o perfil predominante das vítimas é composto por homens. Cerca de 90% dos casos analisados eram do sexo masculino, enquanto 56% tinham 30 anos ou mais. Os homicídios responderam por 67% das mortes avaliadas, superando acidentes de trânsito e suicídios.

De acordo com os pesquisadores, a cocaína foi mais frequente em vítimas de homicídio, enquanto o álcool apareceu com maior incidência em mortes relacionadas ao trânsito. Já os benzodiazepínicos foram mais comuns em casos de suicídio.

A pesquisa também identificou diferenças regionais importantes. Recife apresentou maior prevalência de mortes associadas ao consumo de álcool, enquanto Belém e Vitória registraram maior relação com drogas ilícitas. Em Curitiba, o álcool apareceu com mais frequência do que outras substâncias ilegais.

Os autores ressaltam que o estudo não estabelece relação direta de causa e efeito entre o consumo das substâncias e as mortes violentas, mas aponta sinais consistentes de risco e vulnerabilidade social associados ao uso de álcool e drogas.

Outro dado considerado relevante foi o fato de aproximadamente 85% dos homicídios analisados terem sido provocados por arma de fogo. Para os pesquisadores, o cenário evidencia a complexidade da violência estrutural no país e reforça a necessidade de políticas públicas voltadas para prevenção, saúde pública e redução de danos.

A pesquisa foi realizada entre 2022 e 2024 por equipes treinadas em diferentes regiões do país, com apoio da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos e da FAPESP.