Vírus provoca queda de 83% na população de pererecas na Mata Atlântica

Pesquisa registra pela primeira vez na América do Sul morte em massa de anfíbios silvestres provocada por ranavirose; doença também pode atingir répteis e peixes

Um vírus altamente letal provocou sucessivos episódios de morte de girinos e está associado a uma redução de 83% na reprodução de uma espécie de perereca na Mata Atlântica. O caso ocorreu em uma reserva ambiental de Santa Catarina e representa a primeira comprovação, na América do Sul, de mortalidade em massa de anfíbios silvestres causada por ranavirose.

A descoberta foi feita por pesquisadores apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e publicada nesta quinta-feira (20) na revista científica Biodiversity and Conservation. O estudo acompanhou a população da perereca-macaco (Phyllomedusa distincta) em uma lagoa localizada no município de Guaramirim (SC).

Os resultados reforçam a preocupação de pesquisadores com a disseminação do ranavírus, patógeno que pode infectar anfíbios, répteis e peixes. Na Europa, a doença já foi relacionada ao declínio de populações e ao risco de desaparecimento de espécies.

Além de identificar o vírus como responsável pelas mortes, o trabalho indica que períodos de baixa umidade podem aumentar o risco de surtos.

Mais de 300 girinos encontrados mortos

Os pesquisadores registraram três grandes episódios de mortalidade na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Santuário Rã-Bugio. O primeiro ocorreu em janeiro de 2024. Outros dois foram registrados entre novembro de 2024 e janeiro de 2025 e entre novembro de 2025 e março de 2026.

Ao todo, foram encontrados 324 girinos mortos: 315 da espécie perereca-macaco e nove da perereca-de-pijama (Boana bischoffi).

Entre os girinos de perereca-macaco analisados, 279, o equivalente a 88,6%, apresentaram resultado positivo para ranavírus. Entre as pererecas-de-pijama, oito dos nove animais mortos estavam infectados.

A carga viral encontrada foi elevada. Nas pererecas-macaco, chegou a quase 10 bilhões de cópias do vírus por microlitro de amostra. Nas pererecas-de-pijama, foram aproximadamente 2 bilhões.

Para confirmar que o patógeno estava efetivamente provocando a doença e as mortes, os cientistas também realizaram análises histológicas dos fígados de 13 girinos. Os exames identificaram lesões severas nos tecidos e células dos animais.

Nos girinos, a ranavirose pode evoluir rapidamente e provocar necrose em órgãos vitais, como o fígado. Entre os sinais externos estão inchaço abdominal, vermelhidão intensa, úlceras e hemorragias, inclusive nos olhos.

Segundo Aline Fonseca, que desenvolveu o estudo durante seu doutorado na Universidade Federal do Paraná (UFPR), apesar de já existirem registros de mortes suspeitas no continente americano, esta é a primeira vez que análises dos tecidos e dos vírus isolados dos animais confirmam a ranavirose como causa de mortalidade em uma espécie nativa.

Monitoramento revelou forte declínio

A dimensão do impacto só pôde ser identificada porque a lagoa é monitorada há mais de duas décadas. Desde 1999, Germano Woehl Jr. e Elza Nishimura Woehl, do Instituto Rã-Bugio para Conservação da Biodiversidade, acompanham a reprodução dos anfíbios no local.

Durante o período reprodutivo, entre junho e fevereiro, são contabilizadas diariamente as massas de ovos depositadas pelas pererecas nas folhas próximas à lagoa.

As fêmeas colocam os ovos sobre a vegetação e dobram as folhas ao redor deles, formando uma espécie de proteção contra o ressecamento. Após a eclosão, os girinos caem diretamente na água, onde continuam seu desenvolvimento.

A comparação dos registros históricos com os dados mais recentes revelou uma mudança expressiva. Entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026, após os episódios de mortalidade, a quantidade de massas de ovos ficou muito abaixo da observada no mesmo período entre 1999 e 2004.

A partir dessa diferença, os pesquisadores estimaram em 83% o declínio da população reprodutiva da perereca-macaco.

Tempo seco pode favorecer surtos

Os cientistas também analisaram informações climáticas referentes às duas semanas anteriores e aos períodos em que ocorreram as mortes.

Embora nenhuma variável ambiental tenha apresentado impacto tão significativo quanto a presença da ranavirose, um dado chamou a atenção: o risco de surto aumentou de forma acentuada quando a umidade relativa do ar caiu de cerca de 90% para 65% nas duas semanas anteriores aos episódios de mortalidade.

Uma das hipóteses é que o ranavírus permaneça no ambiente sem necessariamente provocar doença durante todo o tempo. Em condições de menor umidade, porém, sua replicação pode ser favorecida. Ao mesmo tempo, o sistema imunológico dos anfíbios pode ficar mais vulnerável.

A redução do volume de água das lagoas durante períodos secos representa outro problema. Com menos espaço disponível, os girinos ficam concentrados em áreas menores, aumentando o contato entre os animais e facilitando a transmissão do vírus.

Segundo Karla Campião, professora da UFPR e orientadora do trabalho, as análises buscaram identificar alterações ambientais e climáticas que pudessem explicar as mortes, mas nenhum dos fatores avaliados apresentou relação tão forte com o declínio populacional quanto a ranavirose.

Nova ameaça aos anfíbios

A descoberta acende um alerta para a conservação dos anfíbios brasileiros. Há anos, pesquisadores acompanham principalmente os impactos do fungo quitrídio (Batrachochytrium dendrobatidis), associado a grandes episódios de mortalidade e ao desaparecimento de espécies em diferentes regiões do mundo.

Agora, o ranavírus surge como outra ameaça que precisa ser investigada com maior profundidade.

Segundo Luís Felipe Toledo, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do projeto que deu origem ao estudo, o vírus já está disseminado pela Mata Atlântica e pode estar causando impactos ainda desconhecidos sobre outras populações de anfíbios.

O monitoramento no Santuário Rã-Bugio continua, e os pesquisadores pretendem ampliar as coletas para áreas próximas, buscando determinar a prevalência do vírus e identificar outras espécies eventualmente afetadas.

Outra frente considerada importante é analisar exemplares antigos preservados em museus de zoologia. A estratégia pode ajudar a descobrir há quanto tempo o ranavírus circula no Brasil e se episódios de mortalidade registrados no passado podem ter relação com o patógeno.

A abordagem já trouxe resultados relevantes para outro agente infeccioso. Em pesquisa anterior, cientistas identificaram o fungo quitrídio em anfíbios brasileiros preservados desde 1916, período anterior à introdução da rã-touro no país, espécie invasora que durante anos foi apontada como possível responsável pela chegada do fungo ao território brasileiro.

Agora, os pesquisadores querem descobrir se algo semelhante ocorreu com o ranavírus e, principalmente, entender quais mudanças ambientais ou ecológicas podem ter transformado sua presença em uma ameaça às populações de anfíbios.

O estudo integra o projeto “Da história natural à conservação dos anfíbios brasileiros”, apoiado pela FAPESP e coordenado por Luís Felipe Toledo. O trabalho também recebeu financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Ministério da Ciência, Inovação e Universidades da Espanha.