Quasar estreia em Goiânia seu mais novo espetáculo, Céu de Pêssego

Criada por Henrique Rodovalho para um elenco de artistas com trajetórias consolidadas, obra que estreou no MASP e teve direção artística indicada ao Prêmio APCA chega à cidade da Quasar, com a apresentação do SESC, para refletir sobre maturidade, efemeridade e a beleza do tempo presente

Depois de estrear em São Paulo e ganhar a atenção da crítica especializada, a Quasar Cia de Dança traz a Goiânia seu mais novo espetáculo, Céu de Pêssego. A estreia goianiense será no dia 13 de setembro, domingo, às 19h, no Teatro Rio Vermelho, e marca o encontro do público da cidade onde a companhia nasceu com a mais recente criação do coreógrafo Henrique Rodovalho. Os ingressos podem ser adquiridos pelo Disk Ingressos (https://www.diskingressos.com.br/event/3221), e os valores variam de R$ 27 a R$ 80 (com descontos para estudantes, idosos, profissionais da educação, pessoas que doarem 1kg de alimento, conveniado SESC/GO, trabalhador do comércio e seus dependentes). O evento é apresentado pela Quasar Produções e Sesc Goiás.

Com 50 minutos de duração e classificação livre, o espetáculo reúne em cena Carolina Amares, Daniela Moraes, Fabiana Nunes, Jorge Garcia, Luciane Fontanella, Luiz Oliveira, Samuel Kavalerski e Silvia Maia. A apresentação tem realização da Quasar Cia de Dança e do Sesc Goiás.

A chegada a Goiânia acontece pouco mais de um ano depois da estreia nacional de Céu de Pêssego, realizada em agosto de 2025, no MASP, em São Paulo, dentro da programação da 7ª Semana Paulista de Dança. Foi um momento particularmente simbólico para a companhia goiana: além de marcar seu retorno aos palcos depois de um longo hiato, o espetáculo é o primeiro projeto da Quasar inteiramente desenvolvido em São Paulo, reunindo artistas de diferentes trajetórias em torno da linguagem criada pelo grupo ao longo de quase quatro décadas.

Desde então, a obra seguiu seu percurso e voltou à capital paulista, em dezembro de 2025, para uma temporada no Sesc Vila Mariana, além de ganhar novas apresentações em 2026. A passagem por São Paulo também trouxe reconhecimento da crítica: a direção artística de Céu de Pêssego, assinada por Henrique Rodovalho, esteve entre as indicadas ao Prêmio APCA 2025, da Associação Paulista de Críticos de Artes, na categoria Coreografia/Criação.

Um “poema coreográfico” sobre encontros e passagem do tempo
Na temporada paulistana, Céu de Pêssego também chamou a atenção da imprensa especializada. Em crítica publicada pela revista Bravo!, Rafael Ventuna definiu o espetáculo como um “poema coreográfico” sobre afastamentos e reencontros e destacou diferentes momentos da montagem, entre eles o solo de Daniela Moraes, a interpretação de Jorge Garcia e a maneira como os materiais coreográficos trazidos pelos próprios bailarinos são incorporados à linguagem de Rodovalho.

A recepção dialoga diretamente com uma das escolhas centrais da criação. Em vez de formar um elenco a partir da juventude ou de uma suposta homogeneidade física, Rodovalho quis reunir artistas que tivessem história para colocar em cena. Bailarinos com carreiras reconhecidas, experiências acumuladas em diferentes companhias e processos criativos e uma relação própria com a dança.

É justamente essa bagagem que interessa a Céu de Pêssego. Em uma Quasar que completou 38 anos em 2026, a maturidade não aparece apenas como assunto: ela está inscrita nos corpos que dançam.

Corpos que carregam histórias
O elenco reúne ex-integrantes da Quasar, artistas que já haviam experimentado a linguagem de Henrique Rodovalho em outros contextos e intérpretes que tiveram neste trabalho seu primeiro encontro mais aprofundado com esse vocabulário. Em comum, estão a experiência cênica e trajetórias construídas ao longo de anos de dedicação à dança.

Carolina Amares, por exemplo, traz no currículo passagens por importantes grupos brasileiros, entre eles Grupo Corpo, São Paulo Companhia de Dança e Companhia de Dança Deborah Colker. Fabiana Nunes reúne experiências como intérprete, dramaturgista e diretora e já integrou o Balé da Cidade de São Paulo. Jorge Garcia, bailarino e coreógrafo, passou pela Cisne Negro Cia de Dança e pelo Balé da Cidade de São Paulo antes de criar sua própria companhia.

Luciane Fontanella construiu uma trajetória nacional e internacional, com passagens pela própria Quasar, pelo Balé da Cidade de São Paulo e por companhias no exterior. Luiz Oliveira integra o Balé da Cidade de São Paulo desde 2014, enquanto Samuel Kavalerski, ex-integrante da Quasar, desenvolve uma trajetória que atravessa dança, teatro, literatura e artes visuais e inclui passagens pela São Paulo Companhia de Dança e pelo Balé Teatro Guaíra. Daniela Moraes e Silvia Maia completam esse encontro de diferentes percursos e experiências.

Mais do que reunir currículos, entretanto, Céu de Pêssego coloca essas trajetórias em diálogo. A proposta de Rodovalho foi permitir que a personalidade, a experiência e o momento artístico de cada intérprete atravessassem a coreografia. Em entrevista à Bravo! por ocasião da estreia, o coreógrafo sintetizou a proposta como um “encontro das nossas verdades”.

A maturidade como potência
A escolha desse elenco encontra eco na própria história de Henrique Rodovalho. Diretor artístico e coreógrafo da Quasar desde sua fundação, ele também chega a Céu de Pêssego carregando décadas de investigação sobre o movimento e sobre as possibilidades do corpo.

Ao longo desse percurso, sua criação ultrapassou as fronteiras da companhia goiana. Trabalhos de Rodovalho foram apresentados e remontados por grupos como Balé da Cidade de São Paulo, Balé Teatro Guaíra, São Paulo Companhia de Dança e Nederlands Dans Theater, além de companhias de outros países.

Em Céu de Pêssego, portanto, há um encontro entre experiências: um coreógrafo que revisita uma linguagem construída ao longo de décadas e intérpretes que chegam a ela trazendo suas próprias histórias.

O resultado não abandona a exigência física característica da Quasar. Ao falar sobre o trabalho à Bravo! antes da estreia, Rodovalho ressaltou que, mesmo diante de um elenco predominantemente formado por artistas maduros, o virtuosismo continuava elevado. Em cena, permanecem os movimentos fragmentados, impulsionados por diferentes partes do corpo e articulados em solos, duos, trios, quintetos e conjuntos, além do humor, da imprevisibilidade e do forte componente plástico que marcam a companhia.

O instante em que o céu muda de cor
Essa maturidade encontra sua metáfora na própria imagem que dá nome ao espetáculo. O céu de pêssego é aquele instante raro do entardecer em que a luz colore o horizonte antes de desaparecer. Não acontece necessariamente todos os dias e, quando surge, permanece por pouco tempo. É preciso estar atento para percebê-lo.

A partir dessa imagem, Henrique Rodovalho constrói uma obra sobre a efemeridade da vida, as relações humanas, os caminhos do desejo e a beleza do momento presente. O entardecer não aparece, porém, como sinônimo de encerramento ou perda. É transformação — um momento em que aquilo que veio antes permanece presente, mas assume outra cor.

É justamente aí que tema, trajetória da companhia e escolha do elenco se encontram. Céu de Pêssego não olha para a maturidade como diminuição da potência física ou criativa. Ao contrário: transforma experiência em matéria coreográfica. São corpos capazes de carregar memória e presente simultaneamente.

Uma Quasar que também atravessa o tempo
A estreia em Goiânia acrescenta outra camada a essa reflexão. Fundada na capital goiana em 1988, por Vera Bicalho e Henrique Rodovalho, a Quasar chega aos 38 anos como uma das companhias brasileiras de dança contemporânea de maior projeção nacional e internacional.

Nesse período, construiu uma linguagem própria, reconhecida pela inventividade dos movimentos, pelo humor, pela plasticidade cênica e por um olhar atento para a cultura brasileira e para as contradições da vida contemporânea. Também ajudou a colocar a dança produzida no Centro-Oeste em circulação pelos principais palcos do Brasil e do exterior.

Depois de nascer artisticamente em São Paulo e percorrer novos palcos, Céu de Pêssego chega, portanto, ao território de origem da companhia. E há algo de circular nesse movimento: uma Quasar madura volta para casa com uma obra que pergunta justamente o que fazemos com o tempo que passa — e com toda a experiência que ele deixa em nossos corpos.

Um céu que se desenha no palco
A dimensão visual da montagem também acompanha essa ideia. A trilha sonora original é assinada por Lívia Nestrovski e Fred Ferreira, criada em diálogo com o processo coreográfico e com as individualidades dos intérpretes.

Parceiro histórico da Quasar, Cássio Brasil assina os figurinos e divide com Henrique Rodovalho a criação do cenário. No palco, um chão de veludo cinza registra temporariamente o deslocamento dos bailarinos: conforme os corpos percorrem o espaço, deixam rastros e desenhos que logo se modificam.

O cenário passa, assim, a materializar a mesma ideia que move a coreografia. Há marcas que existem por alguns instantes antes de serem substituídas por outras. Como o céu no entardecer, sua beleza também reside na impossibilidade de permanecer igual.

Sinopse
Céu de Pêssego, mais recente trabalho da Quasar Cia de Dança, é inspirado no instante raro em que o céu se tinge de tons de pêssego. A partir dessa imagem, a coreografia de Henrique Rodovalho reflete sobre a efemeridade, o desejo, as relações humanas e a beleza do momento presente. Em cena, artistas com trajetórias consolidadas encontram a linguagem construída pela Quasar ao longo de quase quatro décadas, em uma criação que combina maturidade artística, inventividade dos movimentos, humor e plasticidade cênica.