O Fim de uma Era? Rússia e China Eliminam o Dólar no Comércio Bilateral

Rússia e China consolidaram o uso do rublo e do yuan como principais moedas nas transações comerciais entre os dois países, reduzindo significativamente a participação do dólar e do euro. A mudança ganhou força nos últimos anos, impulsionada pelas sanções econômicas impostas à Rússia e pela busca de maior autonomia financeira nas relações internacionais.

De acordo com o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, as moedas ocidentais passaram a ter participação residual nas operações bilaterais. Atualmente, a maior parte dos pagamentos entre Moscou e Pequim é realizada diretamente em moedas nacionais.

O fortalecimento dessa estratégia acompanha a expansão da parceria econômica entre os dois países, cujo comércio bilateral supera US$ 200 bilhões por ano e abrange setores como energia, agricultura, tecnologia, indústria e infraestrutura.

Sanções aceleraram mudanças no sistema de pagamentos

A adoção do rublo e do yuan foi intensificada após a aplicação de sanções financeiras contra a Rússia, que incluíram o congelamento de reservas internacionais, restrições ao sistema bancário e limitações ao acesso ao sistema global de pagamentos.

Diante desse cenário, Moscou e Pequim passaram a ampliar mecanismos próprios para realizar operações comerciais sem depender de moedas ou instituições financeiras ocidentais.

Segundo autoridades russas, mais de 90% das transações entre os dois países já eram liquidadas em moedas nacionais em 2024, percentual que posteriormente teria se aproximado da totalidade das operações.

Comércio entre os países ganhou força

Apesar das restrições impostas à economia russa, a relação comercial com a China se intensificou.

A China ampliou as compras de petróleo, gás natural, carvão e outras commodities russas, enquanto aumentou as exportações de máquinas, equipamentos, veículos, eletrônicos e produtos industriais para o mercado russo.

Projetos estratégicos na área de energia, como o gasoduto Força da Sibéria, também fortaleceram a cooperação econômica entre os dois países.

Debate sobre o papel do dólar

Especialistas apontam que o dólar continua sendo a principal moeda utilizada no comércio internacional, nas reservas dos bancos centrais e nos mercados financeiros globais.

Ao mesmo tempo, o uso de sanções econômicas e financeiras pelos Estados Unidos tem levado alguns países a buscar alternativas que reduzam a dependência da moeda norte-americana e ampliem sua autonomia nas transações internacionais.

Esse movimento inclui a criação de sistemas próprios de pagamento, a ampliação do comércio em moedas locais e a diversificação das reservas internacionais.

Diversificação avança em diferentes regiões

Além da Rússia e da China, outras economias emergentes também vêm ampliando o uso de moedas nacionais em operações comerciais.

No âmbito do Brics, por exemplo, os países discutem mecanismos para facilitar pagamentos entre seus membros utilizando moedas locais, reduzindo custos e a exposição às oscilações cambiais.

Em paralelo, bancos centrais de diferentes países têm aumentado suas reservas em ouro e diversificado os ativos internacionais, estratégia vista como forma de ampliar a segurança financeira em um cenário global mais instável.

União Europeia também busca alternativas

A discussão sobre maior autonomia financeira não se restringe aos países emergentes.

A União Europeia desenvolve o projeto do euro digital, iniciativa liderada pelo Banco Central Europeu para fortalecer os meios de pagamento do bloco e reduzir a dependência de plataformas privadas e sistemas internacionais baseados no dólar.

A proposta ainda está em desenvolvimento e depende da conclusão de etapas legislativas e regulatórias antes de uma eventual implementação.

Brasil amplia operações em moedas locais

O Brasil também tem buscado ampliar mecanismos que permitam realizar parte de seu comércio exterior em moedas locais, especialmente nas relações comerciais com a China.

Entre as iniciativas estão acordos para liquidação de operações em reais e yuans e estudos sobre novos instrumentos de financiamento em moeda chinesa. A estratégia visa diversificar as opções de pagamento, reduzir custos cambiais e ampliar a flexibilidade nas relações comerciais, sem substituir o papel do dólar nas operações internacionais.

Tendência de diversificação

Embora o dólar permaneça como a principal moeda do sistema financeiro global, analistas observam um movimento gradual de diversificação nos meios de pagamento internacionais.

A experiência de Rússia e China é considerada um dos exemplos mais avançados desse processo, demonstrando como mudanças geopolíticas e econômicas podem acelerar a adoção de alternativas ao modelo tradicional de liquidação do comércio exterior.