PF confirma que contratos citados em investigação envolvendo Fábio Luís não foram assinados
Apuração identificou negociações e projetos relacionados ao Ministério da Saúde, mas propostas não avançaram e não resultaram em contratações; defesas dos envolvidos negam irregularidades
Investigações da Polícia Federal sobre negociações envolvendo a lobista Roberta Luchsinger e Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, apontam que contratos mencionados em reportagens que citam Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não chegaram a ser assinados. As tratativas existiram, mas os negócios analisados não se concretizaram.
Segundo informações divulgadas pela Folha de S.Paulo, a PF identificou três frentes de negociação relacionadas a possíveis negócios com o Ministério da Saúde. As propostas envolviam medicamentos à base de cannabis, testes para diagnóstico de dengue e outras arboviroses e eventuais parcerias produtivas com a Indústria Química do Estado de Goiás (Iquego).
Nenhuma dessas iniciativas resultou nos contratos pretendidos.
O Ministério da Saúde informou que as propostas citadas na investigação não tiveram encaminhamento ou repercussão dentro da pasta. O órgão ressaltou ainda que suas aquisições obedecem aos procedimentos previstos na legislação para contratações e licitações públicas.
Negociações não avançaram
Uma das frentes investigadas tratava da possível comercialização de medicamentos à base de cannabis. De acordo com as informações da apuração, as projeções discutidas chegavam a aproximadamente R$ 627 milhões.
As conversas envolviam questões relacionadas à regularização dos produtos para venda no Brasil e à eventual remuneração pela intermediação dos negócios. A proposta, porém, não prosperou. Conforme relatado na investigação, a operação teria sido considerada inviável nos moldes apresentados.
Outra iniciativa previa a comercialização de testes rápidos para diagnóstico de dengue e outras arboviroses. As projeções financeiras se aproximavam de R$ 1 bilhão, mas também não houve contratação pelo poder público.
A terceira frente envolvia possíveis parcerias com a Iquego. As propostas foram analisadas, mas acabaram rejeitadas pela área técnica do Ministério da Saúde e não resultaram em contratos.
PF apura relações entre envolvidos
Apesar de os negócios não terem avançado, a Polícia Federal investiga as relações mantidas entre as pessoas envolvidas nas tratativas.
Segundo informações atribuídas à investigação, Fábio Luís teria atuado em “comunhão de interesses econômicos” com Roberta Luchsinger e seria beneficiário indireto de ações realizadas pela lobista. A apuração também menciona o filho de Fábio Luís.
As suspeitas integram uma investigação ainda em andamento e são contestadas pelas defesas. Até o momento, as informações relatadas não representam, por si só, uma conclusão judicial sobre eventual prática de crime.
A PF também identificou pagamentos realizados por Roberta Luchsinger. Segundo a investigação, ela teria quitado cerca de R$ 217 mil em faturas de cartão de crédito de Marco Aurélio Ribeiro, ex-chefe de gabinete de Lula, em 2024, período em que buscava desenvolver negócios relacionados a canabidiol e testes de diagnóstico.
A defesa sustenta que os valores eram referentes a empréstimos posteriormente quitados e nega irregularidades.
Reuniões e propostas não resultaram em contratos
A investigação registra ainda uma reunião de Roberta Luchsinger no Ministério da Saúde com representantes da empresa Duosystem, realizada antes de sua aproximação com Antônio Carlos Camilo Antunes.
Apesar do encontro e das negociações posteriores, a empresa não obteve os contratos discutidos com o governo federal.
O mesmo ocorreu nas outras frentes examinadas pela PF: houve conversas, propostas, projeções financeiras e tentativas de estruturar negócios, mas as contratações públicas mencionadas na investigação não foram concretizadas.
Defesas contestam suspeitas
As defesas de Fábio Luís, Roberta Luchsinger e Marco Aurélio Ribeiro negam a existência de irregularidades.
Os advogados também questionam a divulgação fragmentada de informações de uma investigação ainda em andamento. Argumentam que a exposição isolada de mensagens, relações pessoais e negociações que não se concretizaram pode produzir interpretações equivocadas dos fatos.
No caso dos pagamentos identificados pela PF, a defesa afirma que se tratava de empréstimos posteriormente devolvidos. Já a defesa de Fábio Luís rejeita as suspeitas levantadas a partir das mensagens e relações analisadas pelos investigadores.
Ministério confirma que propostas não tiveram prosseguimento
O Ministério da Saúde afirma que nenhuma das iniciativas mencionadas teve encaminhamento ou repercussão dentro da pasta e reforça que as contratações realizadas pelo governo seguem as exigências legais.
A investigação da PF prossegue sobre as relações entre os envolvidos, as conversas mantidas, os pagamentos identificados e a eventual existência de interesses econômicos comuns.
Um ponto, entretanto, está estabelecido pelas informações disponíveis até agora: as três principais frentes comerciais analisadas não resultaram em contratos com o Ministério da Saúde.
A distinção é relevante para a compreensão do caso. De um lado, existem tratativas e relações que permanecem sob investigação e precisam ser esclarecidas. De outro, os contratos milionários discutidos nessas negociações não foram assinados nem executados pelo governo federal.